O autor deste blog NÃO reconhece o novo acordo ortográfico e usa sua própria ortografia baseada em critérios lógicos.

Conheça, também, o primeiro Aleateorias.

sábado, 1 de outubro de 2011

QUANDO AS PALAVRAS NÃO RESOLVEM VI


Há dias que estou questionando (de novo) meu trabalho como professor. E, sempre que faço isso, a vontade de largar tudo só aumenta. Nessa hora, algo acontece ou aparece e me faz lembrar o que é que estou fazendo aqui. Ainda não é hora de parar. É hora de mudar, certamente, mas não de desistir. Por eles.

sábado, 17 de setembro de 2011

A CAIXINHA DE MÚSICA

Quando comecei a vida de blogueiro, demorei a perceber que poderia apresentar meus contos aos amigos. Dizem que quem escreve em casa, na privacidade de seu quarto ou coisa que o valha, faz questão de mostrar ao mundo o que escreve, enquanto quem escreve em lugares públicos faz exatamente o contrário. Sou mais o segundo caso, mas às vezes saio da casca.
No momento, estou trabalhando num conto novo (ou velho, já que estou trabalhando em cima do mesmo argumento há alguns anos) e não sei quando vou terminar. Enquanto isso, reapresento meu material mais antigo.
O conto que apresento a seguir já foi publicado no antigo Aleateorias e, de todo o material que escrevi ainda no colegial, é o melhor que consegui — na verdade, fiz a primeira versão dele no colegial e gastei um bocado de tempo re-escrevendo, até chegar à versão final anos mais tarde. Não é grande coisa para quem lê, mas certamente me diverti muito escrevendo.


Não achei os créditos da foto. Se alguém souber, por favor, me avise.

Era um dia de chuva, desses em que não há o que fazer, e Ângela estava sozinha no quarto, olhar fixo na janela, talvez observando pessoas e carros que passavam pela rua, talvez seguindo o caminho percorrido pelas gotas que se chocavam contra o vidro, ou talvez apenas contemplando a própria beleza refletida naquele espelho diáfano que a separava do resto do mundo. Ou talvez estivesse apenas olhando para lugar nenhum, o que parecia estar mais próximo da verdade. No rosto, um olhar distante e sem brilho, como se ela não estivesse ali, apenas uma casca vazia e sem vida.
Continuou assim por algum tempo, imóvel e calada, até que de seus finos lábios rosados saíram algumas palavras em leve tom de indignação:
— Odeio chuva... — e voltou ao silêncio.
De fato, ficar trancado em casa sem o que fazer ou com quem conversar não é o que a maioria das pessoas consideraria interessante, principalmente quando se sabe que fora dali o povo se ocupa e se diverte com as mais diversas atividades. Ângela não gostava de rádio ou televisão, menos ainda de jornais e revistas. Também não tinha amigos na cidade. A bem da verdade, não os tinha em lugar nenhum. Era uma menina solitária e amarga e queria continuar desse jeito.
Mas nem sempre fora assim. Dias de chuva como aquele sempre a faziam lembrar de como tudo tinha sido tão bom. E foi para fugir dessas lembranças que ela afastou o olhar da janela. Seus olhos percorreram cada detalhe do quarto até pousarem sobre um pequeno porta-retrato virado sobre a mesa.
Ângela hesitou um pouco, mas estava sozinha em casa e podia se permitir expressar os sentimentos, ao menos por alguns instantes. Pegou o porta-retrato e virou-o para que pudesse ver a foto. Lá estava ela, cinco anos mais nova, ao lado dos pais e dos irmãos, todos sorridentes, pois a pequena princesa completava dez anos. Ângela ainda se lembrava de cada momento da festa, das brincadeiras, dos doces, dos convidados, dos presentes... Havia um que era especial, propositadamente esquecido no fundo de uma das gavetas.
A garota, então, abriu a última gaveta do guarda-roupa e dela retirou um pequeno embrulho. O papel e a fita, já bem gastos, indicavam que o pacote fora feito e desfeito muitas vezes desde aquele aniversário. Com o mesmo cuidado de cinco anos atrás, Ângela desatou o laço e desdobrou o papel e, de dentro da pequena caixa de papelão colorido, retirou a caixinha de música que antes fora de sua mãe e, por um breve instante, sorriu.
Ainda se lembrava da alegria sentida no momento em que viu o presente que sua mãe lhe dera. Tantas vezes a vira cantando e dançando ao som daquela melodia suave, tantas vezes tentara segui-la em seus passos e notas... Aquela caixinha era seu maior desejo e agora era sua, como antes fora de sua mãe, da mãe de sua mãe e da mãe da mãe de sua mãe. Aos muitos sonhos de outras gerações depositados naquela caixinha, somavam-se agora os de Ângela.
Como se estivesse hipnotizada, a menina abriu a caixinha e a música encheu o quarto. Sorriu como sorrira na festa e como sorrira sempre que vira sua mãe cantando e dançando e a cada beijo de boa-noite que ela lhe dera. Sentia-se feliz e segura perto dela.
Voltou a olhar pela janela. As pessoas passavam sem saber que eram observadas. Ângela as via apressadas ou tranqüilas, sozinhas ou acompanhadas, e de cada uma tentava imaginar os sorrisos, as angústias, as paixões, os temores. O que não daria para ser parte de tudo aquilo outra vez? Queria gritar e mostrar ao mundo que ainda estava viva! Mas não havia quem a ouvisse naquela tarde. Estava completamente só.
Abriu a janela, mas não gritou. Simplesmente aproximou-se o máximo que pôde, abriu os braços, fechou os olhos e inclinou a cabeça para trás como se esperasse pelo abraço de uma pessoa querida que não via há muito tempo. As cortinas agitadas pelo vento acariciavam a menina com suaves toques de renda branca perfumada, convidando-a a dançar, enquanto o vento fazia festa em seus longos cabelos castanhos e a chuva gentilmente cobria-lhe a face com dezenas de pequenos beijos molhados. A música tornava-se cada vez mais intensa e para Ângela parecia que o mundo girava à sua volta como se tivesse trocado de lugar com a pequena bailarina que dançava sobre a caixinha. Aquele momento de exaltação dos sentidos trazia-lhe ao coração a crescente sensação de... Nada. Vazio. Não era a mesma coisa. Não odiava, realmente, a chuva. Odiava não poder mais senti-la como antes.
Despertando do transe, Ângela fechou a janela. Estava molhada e com frio e a música já não a alegrava mais. Lembranças que, sem sucesso, se esforçara para apagar, agora voltavam muito mais fortes.
Era noite, chovia muito, e Ângela estava quase adormecida no banco de trás do carro. Segurava junto ao corpo o melhor presente de aniversário que já ganhara em toda a sua curta vida., sem tentar esconder a felicidade que tinha no coração. Os irmãos mais velhos dormiam ao seu lado e os pais conversavam alegremente sobre a festa. Ângela dormiu. Então, ouviu apenas o grito de sua mãe bruscamente interrompido e dores terríveis tomaram seu corpo. Uma grande confusão de luzes e sons formou-se ao seu redor e, então, tudo ficou escuro.
A escuridão durou vários dias. Vozes desconhecidas mas gentis falavam-lhe muitas coisas, mas pouco lhe diziam sobre sua família ou sobre o que era aquele lugar. Sentia dores fortes por todo o corpo, tentava mover-se sem resultado. Teve medo muitas vezes e o tempo todo sentiu-se só. A única companhia que tinha quando as vozes iam embora era a melodia que conhecia tão bem. Era sua única fonte de conforto.
Os dias seguintes foram difíceis. Mudando de casa em casa, vivendo com parentes que mal conhecia, tentando aprender a aceitar a dura verdade de que estava sozinha. Tornou-se amarga, calada, triste, em nada lembrava a menina alegre e cheia de vida que fora antes. O cuidado e a atenção de avós, tios e primos não compensavam o que ela perdera naquela noite.
Morava agora com uma tia que mal encontrava. A casa grande parecia ainda maior quando Ângela ficava sozinha, o que acontecia durante a maior parte do tempo. A menina até preferia a solidão dentro de casa. Ao menos assim, não precisava se esforçar para ser simpática. Podia ficar ali, de cara amarrada, de mal com a vida e com o mundo sem ninguém por perto para sentir pena dela ou recriminá-la por ter desistido tão facilmente de viver.
Lágrimas rolaram pelo rosto, ao mesmo tempo belo e sem vida. Ela não se esforçou para contê-las. A música continuava tocando e trazendo lembranças. Sentiu o coração encher-se de tristeza e alegria. Queria cantar e chorar, brincar e gritar. As lembranças continuavam a vir como uma tempestade que varre as praias, um espetáculo de rara beleza, mas de uma beleza aterradora, destruidora. A cada lembrança, uma lágrima. Sua mãe cantando e dançando, as brigas e brincadeiras com seus irmãos, as histórias contadas por seu pai, belas lembranças que só lhe traziam mais sofrimento.
A música tornou-se mais lenta até desaparecer. O quarto mergulhou outra vez no silêncio quebrado apenas pela chuva lá fora. Ângela fechou a caixinha, guardando novamente todos os sonhos de menina que ainda esperavam pelo dia em que se tornariam reais. A festa tinha terminado e Ângela jamais se esquecera disso nos últimos cinco anos. Não poderia.
Voltou-se novamente para a mesa e mais uma vez deixou o porta-retrato virado sobre ela. Refez o embrulho e o guardou de volta no fundo da gaveta. Depois, enxugou o rosto com um lenço de papel. Com a força que lhe restava nos braços, fez mover aquela fria cadeia que a prenderia por toda a vida e voltou a olhar pela janela. Sua cadeira de rodas seria sua única companhia no restante da tarde. A menina até poderia jurar tê-la ouvido, num sussurro frio e metálico, desejar-lhe um feliz aniversário, enquanto a chuva lá fora tornava-se mais forte.

domingo, 11 de setembro de 2011

ZAPPING XXXIX


© Comstock

Não sou do tipo supersticioso, mas começo a desconfiar que minha família foi escolhida para provar que a vida sem carro é possível, mesmo numa cidade gigantesca como São Paulo. Digo isso porque, nos últimos dois meses, o carro ficou parado por conta de um acidente leve, seguido por reparos e revisão. Hoje, ele foi furtado. Felizmente, não estávamos por perto e, portanto, não corremos nenhum risco. Agora vem aquela burocracia toda para liberação do seguro, a procura por um carro novo (ou semi-novo)… Felizmente, já ficamos tanto tempo sem carro que estamos bem adaptados.
Assunto inevitável hoje: há dez anos, eu estava chegando em casa quando entrei na sala e vi a TV ligada. O primeiro avião tinha acabado de acertar a primeira torre e ainda se falava em acidente. Assisti, ao vivo, o segundo avião atingir a segunda torre. Uma amiga americana estava hospedada em casa naquele dia. Levei alguns minutos para conseguir acordá-la e fazê-la entender o que estava acontecendo. Acho que a única palavra capaz de descrever a reação dela é “perplexidade”.
Nunca troquei mais do que algumas palavras no corredor ou no elevador, mas sinto saudades dos nossos antigos vizinhos. Eles não fumavam. Sei lá quem é que está morando no apartamento ao lado, mas a fumaça do cigarro enche o corredor e passa por baixo da nossa porta, entra pela janela, sei lá por onde mais. Só sei que o cheiro é forte e meus olhos ardem. Estranho, porque estou mais do que acostumado com pessoas fumando do meu lado. Qualquer que seja a explicação, a situação é bem desagradável.
Estou cada vez mais convencido de que preciso arranjar outro trabalho. Só não sei ainda o que vai ser. É provável que o plano inclua ficar de olho em concursos públicos em outras áreas que não envolvam escolas. Aceito sugestões.
No momento, acompanho a final do pré-olímpico de basquete, zona americana. Brasil e Argentina garantiram a vaga em Londres 2012 e agora disputam o título. Vendo o jogo, dá para notar a grande diferença que existe entre os dois times. Embora o Brasil realmente tenha feito um bom jogo e batido a Argentina na segunda fase do torneio, é um time muito inconstante. Falta alguém para realmente pensar as jogadas.
Meu palpite é que os clubes fizeram um acordo para o Corinthians ganhar o Brasileirão deste ano. Mais uma vez, o time jogou mal e perdeu. Mas os outros concorrentes diretos ao título também perderam, exceto o Vasco, que pelo menos arrancou um empate. Parece que, em vez de campeonato de pontos corridos, estamos vendo um campeonato de pontos parados.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ENCRUZILHADAS

© Images.com/Corbis

Deu vontade de escrever hoje. Só não sei sobre o quê. Assuntos não faltam. É Dia da Independência, Rogério Ceni está fazendo sua milésima partida pelo São Paulo neste momento, tenho uma série de inquietações na cabeça, qualquer coisa seria um tema muito bom para um post. Mas o fato é que, embora eu queira escrever, não tenho a tranqüilidade necessária para amadurecer alguma idéia.
Escrever é uma das coisas que me ajudam a colocar as idéias em ordem. No geral, resolvo isso dentro da minha cabeça mesmo, mas às vezes as coisas são tão agitadas aqui dentro que escrever se torna necessário. A bem da verdade, escrevo muito mais para mim mesmo do que para meus leitores. Enquanto a maior parte dos blogueiros escreve para compartilhar suas idéias com outros, eu escrevo para que eu mesmo tenha uma visão mais clara do que estou realmente pensando. Mais uma demonstração da minha absurda tendência a me colocar no centro do universo — conceitual, não físico, é claro.
Sinto-me um tanto perdido no momento. E não posso dizer o que me faz sentir isso porque também não consigo identificar a origem. Ao menos não por enquanto. Talvez até o fim do post eu descubra. Ou o fim da vida, que provavelmente vai demorar mais do que o fim do post para chegar.
Houve um tempo em que não ter certeza das coisas me incomodava muito. Também é verdade que sempre gostei de improvisos, como decidir na última hora o que comer ou só saber o que tem no cinema na hora de entrar na fila, mas essas são aquelas pequenas incertezas que a mente comum consegue assimilar com facilidade. Também é verdade que meu quarto parece ser uma demonstração muito precisa da descrição de como funcionam sistemas caóticos e que por isso me obriguei a ter uma mente muito organizada para compensar o fato de que é muito difícil encontrar alguma coisa específica aqui. Ordem e caos, luz e trevas, bem e mal, certeza e dúvida. Sempre me considerei o exemplo vivo da ambigüidade universal.
Venho descobrindo que a sensação de incerteza já não me incomoda tanto. Ou, para ser mais claro, me incomoda, mas de uma maneira diferente. Como qualquer outra pessoa, experimento um pouco de frustração por perceber que não consigo controlar muita coisa na minha vida e, portanto, sou obrigado a reconhecer que eu seria um péssimo centro do universo, o que, felizmente, não sou. Ao mesmo tempo, é bom saber que minhas imperfeições me obrigam a me submeter aos desígnios divinos, às convenções sociais e ao julgamento de outras pessoas, mesmo que eu não reconheça a capacidade da maioria das pessoas de realmente me julgar com coerência e justiça.
Antes que me acusem de ser excessivamente arrogante — e reconheço que sou — e de não reconhecer qualquer autoridade sobre mim, devo dizer que realmente acredito em Deus e em seu julgamento — que quase certamente resultaria na minha condenação — e na doutrina protestante da salvação pela fé no sacrifício de Cristo, o que, de certo modo, me isenta da obrigação de ser perfeito, uma vez que o reconhecimento da graça divina significa, necessariamente, reconhecer a minha incapacidade de atingir a perfeição por minhas próprias forças, embora não me torne menos culpado por não atingir os padrões de santidade que seriam logicamente exigidos de alguém que acredita carregar o título de filho (adotivo) de Deus — o que novamente me coloca na lista dos condenáveis.
Acho que essa é a parte legal da incerteza. Sentir-me perdido, sem nem saber por quê, me obriga a reconhecer que dependo muito mais do cuidado e do amor de Deus do que minha quase constante certeza de auto-suficiência me faz acreditar. E se alguém tão arrogante quanto eu consegue reconhecer isso, talvez eu não seja um caso tão perdido assim.

sábado, 3 de setembro de 2011

OSSOS DO OFÍCIO VIII: NARCISO DESENGANADO


© Images.com/Corbis

Definitivamente, preciso de ajuda. E rápido.
Desde que me tornei professor — e lá se vai uma década nessa brincadeira —, sempre achei que meu maior diferencial fosse a habilidade de dar um sentido integrado a conteúdos que alunos e professores costumam conceber como compartimentos estanques. Grande parte do respeito que conquistei como profissional se deve a um considerável volume de informação de diferentes áreas do conhecimento que consigo articular para que meus alunos sejam apresentados a um cenário muito maior do que a mera descrição dos fatos ou o tradicional binômio nome-data. Mesmo aqueles alunos que não conseguiam me acompanhar, respeitavam meu trabalho porque reconheciam que diante deles estava alguém que tinha um compromisso real com o desafio de provocar o questionamento numa geração intelectualmente passiva. E, enquanto pedagogos e professores ainda tentam entender o real significado da interdisciplinaridade — a última moda nos discursos sobre educação escolar —, ando com ela de braço dado, totalmente confortável com temas e dados que “não têm nada a ver com história”.
Não perdi essa habilidade e, sem falsa modéstia (ao menos sou honesto para admitir que me falta a verdadeira), ela está muito mais afiada hoje do que no início da carreira. Já dizia Aristóteles que a excelência é muito mais uma questão de prática do que de talento. Mas o resultado este ano é pífio, deplorável, irrisório, absolutamente descartável. Se existe um troféu para o professor ineficiente, este ano sou um sério candidato.
Eu poderia colocar a culpa nos alunos, em seu desinteresse, em sua incapacidade de estabelecer prioridades corretamente, em sua preguiça de pensar, em sua preocupação exclusivamente com a diversão e o momento e não com o futuro. Ou poderia colocar a culpa nos pais, que não dão limites aos filhos, que não ensinaram a importância dos estudos, que os abandonaram aos cuidados das babás eletrônicas televisão e internet, que lidam com a escola como se fosse apenas um lugar para deixar os filhos enquanto cuidam de seus afazeres, sem se preocupar com o efetivo cumprimento dos papéis de escola e estudantes. Ou, ainda, também poderia culpar os professores picaretas que fingiram que ensinaram alguma coisa nos anos anteriores, que se preocuparam apenas em reproduzir conhecimento e não em construí-lo. E isso se chegaram tão longe. Posso culpar os políticos, que não dão ao professor as condições adequadas de trabalho, de modo que estamos todos esgotados física e emocionalmente por causa da falta de reconhecimento, da falta de estabilidade financeira, do excesso de trabalho e da sobreposição de papéis — professores são pais, psicólogos, médicos…
Tudo isso é uma parte muito grande do problema, mas, se não existiu desde que a primeira escola foi criada, nada disso é novidade desde muito antes de eu me tornar professor. Talvez o grau de profundidade desses problemas tenha aumentado nos últimos anos, mas eles sempre fizeram parte da minha rotina e, numa perspectiva mais global, meu trabalho sempre foi muito bom. Então, se as coisas este ano estão dando tão errado, a culpa certamente é minha.
Refletindo muito nessas últimas semanas, percebi que ainda não consegui encontrar um ponto de contato com meus alunos. Não consigo me comunicar. Por estranho que pareça, eu, que sempre tive fama de carrasco e de só ver o aluno como aluno e não como pessoa, sempre consegui capturar a atenção da maioria. E nunca fiz uso de nenhum recurso inovador (mesmo porque o Estado só me dá o giz e a lousa) ou de alguma estratégia mirabolante. As coisas sempre aconteceram com naturalidade.
Os pedagogos dizem que é preciso dar relevância ao conhecimento para que ele se torne atraente aos estudantes. Dizem, também, que ele deve ser apresentado de maneira a atiçar a imaginação e a criatividade. O que esses pedagogos esquecem ou ignoram — acredito mais na segunda opção — é que a relevância precisa de pelo menos alguns minutos para ser construída e que imaginação e criatividade dependem de já haver um universo conceitual razoavelmente sólido. Nada disso se consegue sem comunicação, sem vínculo. E é isso que ainda não consegui. E já estamos em setembro.
Talvez seja um problema com esta geração específica. Talvez a turma seguinte seja melhor, mas não consigo apostar nisso. Todos os meus colegas estão insatisfeitos também. A maioria ainda acha que o problema está nos alunos, na família, nos professores anteriores, no sistema. Não perceberam que não estão conseguindo se comunicar. Eu percebo o problema, mas não tenho a menor idéia de como consertar as coisas com os recursos que tenho, sejam materiais ou intelectuais.
Talvez seja mesmo hora de seguir adiante e fazer outra coisa da vida. Um professor que não se comunica pode não ser pior do que um sem compromisso ou sem conhecimento, mas é quase tão inútil quanto.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

FUTEBOLÍSTICAS XI: FUTEBOL NÃO É UMA LÍNGUA UNIVERSAL


Se o futebol é, como dizem, uma língua universal, existe, no mínimo, um grande regionalismo em torno da palavra “vergonha”. Suspeito até que ela seja desconhecida por aqui, uma daquelas palavras que não podem ser traduzidas para o português.
Envergonhados pela derrota por 8 x 2 diante do Manchester United, os diretores do Arsenal anunciaram que os torcedores que foram até Manchester receberão, gratuitamente, ingressos para outro jogo do Arsenal ainda a ser marcado. É a terceira vez que vejo notícia parecida, com ingressos gratuitos ou devolução do dinheiro após derrotas vexatórias.
Lembro, também, de um jogo na Holanda, em que um jogador chutou a bola para o goleiro do outro time em retribuição ao fato de que a bola tinha sido colocada para fora para que seu colega fosse atendido. A bola entrou no gol e, para compensar, o time que acidentalmente obteve vantagem no placar simplesmente abriu caminho para que o jogo voltasse a ficar empatado. E, para evitar qualquer problema de favorecimento em sites de apostas, o goleiro que levou o gol inusitado foi o escolhido para levar a bola até o gol adversário e empatar o jogo.
Situação semelhante ocorreu em jogo na Inglaterra, quando um gol relâmpago marcou o início de uma partida que foi imediatamente suspensa por falta de condições de jogo — não lembro se era chuva ou outra coisa do gênero. Como o jogo não tinha rolado pelo tempo mínimo necessário para ser considerado válido ou interrompido, uma nova data foi marcada e o jogo começaria do zero. Antes do apito inicial, os jogadores do time que tinha marcado o gol no jogo cancelado foram avisados pelos adversários que poderiam simplesmente levar a bola até o gol para que o jogo recomeçasse com o mesmo placar do anterior. O expediente de usar o goleiro também foi aplicado nesse caso.
Há poucas metáforas que explicam o Brasil tão bem quanto o futebol. O sociólogo Gabriel Cohn bem disse que “o sociólogo no Brasil que não tiver os fundilhos das calças puídas pelas arquibancadas não entenderá este país”. O conceito de vergonha está intimamente ligado ao conceito de honra. Duas coisas que praticamente ignoramos por aqui, quando o assunto é futebol.
É fato que a Europa não é o céu e nem o Brasil é o inferno, mas não deixa de ser frustrante ver que, enquanto lá fora pelo menos alguns dirigentes e jogadores se preocupam em preservar o espírito esportivo, aqui aplaudimos dirigentes clubísticos e políticos que defendem a aplicação sem transparência de recursos públicos em estádios de futebol para uma Copa do Mundo que o povo brasileiro só acompanhará pela TV. E denunciar isso é antipatriótico, é ser sabotador, é torcer contra o país. Se o patriotismo é o refúgio dos canalhas, o futebol é o prato em que eles comem.

domingo, 28 de agosto de 2011

SUPER 8 (Super 8) (EUA) (2011)

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Condado de Lillian, Ohio, verão de 1979. Joe (Joel Courtney), Alice (Elle Fanning) e seus amigos participam da produção de um filme amador, quando testemunham um incrível acidente de trem, que marca o início de outros tantos acontecimentos estranhos. Nos dias que se seguem, os garotos só querem terminar o filme, mas a presença dos militares e as desavenças entre os pais de Joe e Alice parecem ser só uma parte muito pequena do problema.
Depois de algumas produções consideradas desastrosas, como o quarto Indiana Jones, Spielberg parece estar tentando voltar às origens. Super 8 é para os adolescentes de hoje o que E.T. foi nos anos 80 para as crianças (e para alguns já um tanto crescidinhos à época): uma fábula disfarçada de ficção científica. É verdade que o trabalho de escrever (razoável) e de dirigir (competente) foi de J. J. Abrams, mais conhecido por produzir séries bem-sucedidas na TV, como Alias e Fringe, mas é impossível não perceber a mão de Spielberg no que ele realmente sabe fazer: efeitos especiais e trabalhar com atores-mirins.
O enredo é bem previsível, como são, em geral, as produções spielberguianas. Os efeitos especiais não chamam a atenção, para bem ou para mal, porque já estamos mais do que acostumados com eles, mas ajudam a criar um pequeno clima de tensão, mesmo que seja tudo muito óbvio. O que realmente segura o filme é o trio formado por Joel Courtney, 15, Elle Fanning, 13, e Riley Griffiths, 14, todos muito convincentes. Muito provavelmente, eles vão atrair cada vez mais a luz dos holofotes (o que nem sempre é positivo, quando se trata de atores-mirins).
Para quem foi criança ou adolescente nos anos 80, Super 8 traz uma série de boas lembranças cinematográficas. É uma espécie de cruzamento entre E.T., Goonies e Contatos Imediatos, numa versão mais heavy metal, mas que não chega a ser hardcore, se é que consigo me fazer entender. Não é um filme imperdível, mas, diante da profusão de histórias disconexas que tem tomado os cinemas, até a superficialidade da eterna questão spielberguiana — quem é o verdadeiro monstro, afinal? — parece muito profunda.
Encerro com uma recomendação que já virou praxe quando falo de cinema: não se preocupe em ver em 3D.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

LANTERNA VERDE (Green Lantern) (EUA) (2011)


Hal Jordan (Ryan Reynolds), piloto de testes de uma companhia aeronáutica militar, é escolhido para fazer parte da Tropa dos Lanternas Verdes, uma corporação policial interplanetária. Sua arma é um anel capaz de gerar construtos de energia a partir da imaginação. A situação de Jordan não é das mais fáceis: além de ser o primeiro humano selecionado pela Tropa, é recrutado para assumir o setor do maior Lanterna Verde de todos os tempos, morto em ação, em meio a uma crise que pode destruir a Tropa e o próprio universo. Tudo isso e ele nem ao menos consegue resolver a vida com a namorada.
Esqueça tudo o que você sabe sobre Hal Jordan e a Tropa dos Lanternas Verdes (o tamanho do esforço varia conforme seu conhecimento). Se você é, como eu, um fã de longa data e chato (ênfase no chato), é o único jeito de se divertir com esse filme. Roteiro muito fraco, cheio de furos lógicos, atuações fracas e ritmo apressado demais. A animação de longa-metragem, Lanterna Verde: Primeiro Vôo é mil vezes superior.
Se você não conhece a história de Jordan e da Tropa ou se é menos chato do que eu (admito que isso é muito provável), vai reconhecer que o filme tem seus méritos e pode até vir a ser uma agradável distração. A história do herói que supera as limitações para vencer um desafio muitas vezes superior sempre funciona.
Como era de se esperar, os efeitos visuais são muito bons, especialmente os construtos de energia verde. Também gostei muito da concepção orgânica do uniforme da Tropa. Mas nada que justifique o ingresso mais caro de uma sessão em 3D.
Resumindo, Lanterna Verde é um daqueles casos de “ame ou odeie”. Como fã dos quadrinhos, principalmente da Tropa, muito mais do que do próprio Lanterna Jordan, considero o filme um verdadeiro fracasso, mas consigo entender o que levaria outras pessoas a gostar dele.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR (Captain America: The First Avenger) (EUA) (2011)

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Dotado de grande coragem e profundo senso de justiça, o jovem Steve Rogers (Chris Evans) é recusado pelo exército por ser fisicamente incapaz. Mas são essas características que levam o doutor Erskine (Stanley Tucci) a escolhê-lo para ser cobaia numa experiência científica que pretende criar um exército de supersoldados. Apesar do sucesso da experiência, o Coronel Phillips (Tommy Lee Jones) não acredita que um supersoldado sozinho possa fazer diferença na guerra e os burocratas do governo só conseguem vê-lo como uma figura carismática para a propaganda de guerra. Mas o desaparecimento do amigo Bucky Barnes (Sebastian Stan) e a confiança da agente Peggy Carter (Hayley Altwell) colocam o Capitão América no encalço do terrível Caveira Vermelha (Hugo Weaving), líder de uma poderosa organização que se rebelou contra Hitler e pretende dominar o mundo.
Seguindo o padrão de suas últimas produções, a Marvel fez um bom filme-pipoca: enredo simples, linguagem adolescente, efeitos especiais convincentes e boas atuações, a considerar as possibilidades do roteiro e do elenco. Sem inovações e surpresas, Capitão América prova que mesmo uma história manjada pode ser boa se for bem-contada. Aliás, um de seus pontos positivos é exatamente ser um filme simples e despretensioso.
Sempre achei o Capitão América mais interessante como representação do pensamento político americano do que como personagem de história-em-quadrinhos. Aqui no Brasil, temos a tendência a fazer pouco caso e, muitas vezes, tratar com animosidade o patriotismo norte-americano — situação que costumo atribuir, em grande parte, à nossa própria falta de patriotismo, mas essa é uma outra discussão para um outro momento. Por isso, me surpreendeu a dificuldade que foi conseguir ingressos para a estréia, bem como o tamanho da fila que fomos obrigados a enfrentar para entrar na sessão. Meu maior receio era que o filme se tornasse mais um dos insuportáveis filmes-propaganda que volta e meia os estúdios hollywoodianos despejam sobre o mundo. Felizmente, não é o caso.
É claro que um filme sobre um miltar americano com capacidades sobre-humanas e que enfrenta uma organização terrorista que tenta dominar o mundo não tem como ser isento — e essa tal de isenção nunca existiu, mas também é assunto para outro momento. O fato é que Capitão América tinha todas as condições para ser um dos filmes mais panfletários de todos os tempos, mas todo o tradicional discurso sobre os EUA como a última linha de defesa da democracia ocidental está inserido de um modo que faz sentido dentro de todo o contexto filmográfico sobre o papel estadunidense na II Guerra Mundial. A questão é que o cinema-de-guerra americano nunca é um retrato da guerra em si, mas do mito americano sobre seu papel na guerra.
Resumindo, Capitão América é um filme simples e politicamente correto, que consegue ser divertido por não tentar se levar a sério.
Uma última palavra aos que ainda estão pensando em assistir: não se preocupem em ver em 3D. Não existe nenhuma cena que realmente faça valer a pena o preço mais alto.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

SAPERE AVDE XI: DA BELLE ÉPOQUE À GRANDE ILUSÃO

Esse é um dos temas que mais gosto de trabalhar no colegial. É algo que venho pensando já há algum tempo, mas os acontecimentos recentes, particularmente o caso da Noruega, me ajudaram a tornar as coisas um pouco mais sólidas. Esta aula seria o fechamento de um módulo um tanto grande, que vai da Belle Époque à II Guerra Mundial.



Da Belle Époque à Grande Ilusão

© Images.com/Corbis

Um homem, brasileiro, usando terno e sapatos italianos, em pé na plataforma de uma estação construída com técnica e material ingleses, à espera de um trem de fabricação americana, lê um jornal francês que traz as últimas notícias sobre a crise econômica na Grécia, a guerra no norte da África e o terremoto no Japão.
O conhecimento técnico-científico já não avança em passos, mas em saltos cada vez mais largos. O cotidiano doméstico e profissional torna-se profundamente dependente de aparelhos de operação relativamente simples, embora sejam altamente complexos se considerado todo o conhecimento que se precisou acumular ao longo de séculos até sua produção. A informação viaja em velocidade crescente, ligando todos os cantos do planeta em poucos segundos. Compra-se aqui o que é produzido do outro lado do mundo e nossos produtos conquistam consumidores que até ontem mal sabiam onde estamos no mapa. A medicina alcança resultados que antes só podiam ser esperados de um milagre e o número de pessoas que chegam à idade centenária é cada vez maior. Produtos e serviços que nem sonhávamos que pudessem existir tornam-se indispensáveis de uma hora para outra.
Os confortos e facilidades que temos à disposição são tantos que não conseguimos entender como era possível viver antes de tudo isso existir. Mais importante do que isso, as notícias que temos sobre pesquisas e descobertas científicas nos dão a certeza de que todos os problemas da humanidade um dia serão superados. Se gerações anteriores depositavam a fé na magia e na religião, agora é a ciência que nos assombra com seus feitos — incompreensíveis para os menos iluminados, mas que até eles podem fazer funcionar em seu benefício com toda a comodidade — e é ela que responderá a todas as necessidades e, principalmente, anseios da humanidade. A felicidade está ao alcance de qualquer um que seja competente o bastante para conquistá-la.
O preço que pagamos pelo progresso é alto. A expansão da atividade humana não se dá apenas na dimensão do conhecimento. A paisagem é alterada de maneira irreversível para atender às necessidades de ocupação do espaço, geração de energia, produção de alimento e extração de matéria-prima. Os recursos naturais começam a escassear em alguns lugares, dando início a uma complicada corrida em direção a regiões ainda mal-exploradas. Onde a diplomacia não é suficiente, a força serve de argumento. E essa disputa torna-se mais intensa quanto mais aumenta a sede de consumo do mercado, convencido de que a felicidade é um direito e que depende do usufruto de tudo o que é novo, porque ninguém é importante de verdade se seu estilo de vida é ultrapassado. Então, trabalhamos muito — é impossível ter as coisas que nos fazem felizes se não trabalhamos e, depois que as temos, continuamos trabalhando, porque descobrimos que precisamos de outras coisas que até ontem não existiam. (A alternativa costuma ser a infelicidade, mas raramente é uma opção).
Paradoxalmente, a descoberta da diversidade humana e a valorização da multiplicidade de opiniões nos tornam genericamente flexíveis mas individualmente intolerantes. O senso de que somos responsáveis por nossa própria felicidade nos leva a rejeitar tudo aquilo que nos causa repulsa e, em situações extremas, assumir a responsabilidade de destruir o que acreditamos estar errado quando ninguém mais parece ter coragem ou moral suficiente. O mundo se comove diante da grande tragédia que atinge o mundo, o indivíduo não se importa com a miséria que aflige uma pessoa. Falamos sobre o mundo, ignoramos o vizinho. Vigiamos celebridades, deixamos políticos à vontade.
E quando todas essas intolerâncias, indiferenças e futilidades individuais se unem numa enorme massa de intolerância, indiferença e futilidade coletiva, o resultado é uma desastrosa mobilização sócio-política que busca atender aos desejos e não responder às necessidades. E, assim, forma-se a ditadura da maioria, a imposição da vontade de uma massa irracional. Daí à explosão da violência não é necessário grande esforço e as vítimas diretas e indiretas serão contadas aos milhões ao longo de décadas.
Tudo isso poderia ser dito por uma pessoa muito atenta ao mundo de hoje. Deveria ter sido visto por quem viveu na passagem do século XIX para o XX. A grande ilusão de que se construía um mundo próspero e harmonioso desabou quando se descobriu que a mesma ciência que podia salvar a humanidade também podia destruí-la. Os construtores do admirável mundo novo falharam em entender que a simples associação entre desenvolvimento técnico-científico e aplicação de uma rígida disciplina de controle estatal não é suficiente para efetivamente trazer ordem e progresso, ao menos não para toda a humanidade, ao contrário do que afirmava o positivismo. O espírito da Belle Époque não foi capaz de evitar as duas Guerras Mundiais — muito pelo contrário, foi responsável por elas em grande parte. O progresso humano só pode existir de fato se o desenvolvimento técnico-científico for acompanhado pela eliminação das injustiças sócio-econômicas, pelo equilíbrio ecológico, pela disseminação de uma educação humanista — único caminho para evitar que os intolerantes abusem da tolerância — e, ouso dizer, pela elevação espiritual — seja ela resultado de reflexão filosófica ou convicção religiosa.

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