
Se o futebol é, como dizem, uma língua universal, existe, no mínimo, um grande regionalismo em torno da palavra “vergonha”. Suspeito até que ela seja desconhecida por aqui, uma daquelas palavras que não podem ser traduzidas para o português.
Envergonhados pela derrota por 8 x 2 diante do Manchester United, os diretores do Arsenal anunciaram que os torcedores que foram até Manchester receberão, gratuitamente, ingressos para outro jogo do Arsenal ainda a ser marcado. É a terceira vez que vejo notícia parecida, com ingressos gratuitos ou devolução do dinheiro após derrotas vexatórias.
Lembro, também, de um jogo na Holanda, em que um jogador chutou a bola para o goleiro do outro time em retribuição ao fato de que a bola tinha sido colocada para fora para que seu colega fosse atendido. A bola entrou no gol e, para compensar, o time que acidentalmente obteve vantagem no placar simplesmente abriu caminho para que o jogo voltasse a ficar empatado. E, para evitar qualquer problema de favorecimento em sites de apostas, o goleiro que levou o gol inusitado foi o escolhido para levar a bola até o gol adversário e empatar o jogo.
Situação semelhante ocorreu em jogo na Inglaterra, quando um gol relâmpago marcou o início de uma partida que foi imediatamente suspensa por falta de condições de jogo — não lembro se era chuva ou outra coisa do gênero. Como o jogo não tinha rolado pelo tempo mínimo necessário para ser considerado válido ou interrompido, uma nova data foi marcada e o jogo começaria do zero. Antes do apito inicial, os jogadores do time que tinha marcado o gol no jogo cancelado foram avisados pelos adversários que poderiam simplesmente levar a bola até o gol para que o jogo recomeçasse com o mesmo placar do anterior. O expediente de usar o goleiro também foi aplicado nesse caso.
Há poucas metáforas que explicam o Brasil tão bem quanto o futebol. O sociólogo Gabriel Cohn bem disse que “o sociólogo no Brasil que não tiver os fundilhos das calças puídas pelas arquibancadas não entenderá este país”. O conceito de vergonha está intimamente ligado ao conceito de honra. Duas coisas que praticamente ignoramos por aqui, quando o assunto é futebol.
É fato que a Europa não é o céu e nem o Brasil é o inferno, mas não deixa de ser frustrante ver que, enquanto lá fora pelo menos alguns dirigentes e jogadores se preocupam em preservar o espírito esportivo, aqui aplaudimos dirigentes clubísticos e políticos que defendem a aplicação sem transparência de recursos públicos em estádios de futebol para uma Copa do Mundo que o povo brasileiro só acompanhará pela TV. E denunciar isso é antipatriótico, é ser sabotador, é torcer contra o país. Se o patriotismo é o refúgio dos canalhas, o futebol é o prato em que eles comem.